BAIOQUE (Chico Buarque, 1972)

 

Quando eu canto

Que se cuide

Quem não for meu irmão

O meu canto

Punhalada

Não conhece perdão

Quando eu rio

 

Quando rio

Rio seco

Como é seco o sertão

Meu sorriso

É uma fenda

Encravada no chão

Quando eu choro

 

Quando choro

É uma enchente

Surpreendendo o verão

É o inverno

De repente

Inundando o sertão

Quando eu amo

 

Quando amo

Eu devoro

Todo o meu coração

Eu odeio

Eu adoro

Numa mesma oração

Quando eu canto

 

Mamãe, não quero seguir

Definhando sol a sol

Me leva daqui

Eu quero partir

Requebrando um rock anda roll

Nem quero saber

Como se dança o baião

Eu quero ligar

Eu quero um lugar

Ao som de Ipanema, cinema e televisão

 

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