BREJO DA CRUZ (Chico Buarque, 1984)

 

A novidade

Que tem no Brejo da Cruz

É a criançada

Se alimentar de luz

 

Alucinados

Meninos ficando azuis

E desencarnando

Lá no Brejo da Cruz

 

Eletrizados

Cruzam os céus do Brasil

Na rodoviária

Assumem formas mil

 

Uns vendem fumo

Tem uns que viram Jesus

Muito sanfoneiro

Cego tocando blues

 

Uns têm saudade

E dançam maracatus

Uns atiram pedra

Outros passeiam nus

 

Mas há milhões desses seres

Que se disfarçam tão bem

Que ninguém pergunta

De onde essa gente vem

 

São jardineiros

Guardas noturnos, casais

São passageiros

Bombeiros e babás

 

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

 

São faxineiros

Balançam nas construções

São bilheteiras

Baleiros e garçons

 

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

 

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