OLÊ, OLÁ (Chico Buarque, 1965)

 

Não chore ainda não

Que eu tenho um violão

E nós vamos cantar

Felicidade aqui

Pode passar e ouvir

E se ela for de samba

Há de querer ficar

 

Seu padre toca o sino

Que é pra todo mundo saber

Que a noite é criança

Que o samba é menino

Que a dor é tão velha

Que pode morrer

Olê olê olê olá

Tem samba de sobra

Quem sabe sambar

Que entre na roda

Que mostre o gingado

Mas muito cuidado

Não vale chorar

 

Não chore ainda não

Que eu tenho uma razão

Pra você não chorar

Amiga me perdoa

Se eu insisto à toa

Mas a vida é boa

Para quem cantar

 

Meu pinho, toca forte,

Que é pra todo mundo acordar

Não fale da vida

Nem fale da morte

Tem dó da menina

Não deixa chorar

Olê olê olê olá

Tem samba de sobra

Quem sabe sambar

Que entre na roda

Que mostre o gingado

Mas muito cuidado

Não vale chorar

 

Não chore ainda não

Que eu tenho a impressão

Que o samba vem aí

E um samba tão imenso

Que eu ás vezes penso

Que o próprio tempo

Vai parar pra ouvir

 

Luar, espere um pouco

Que é pro meu samba poder chegar

Eu sei que o violão

Está fraco, está rouco

Mas a minha voz

Não cansou de chamar

Olê olê olê olá

Tem samba de sobra

Ninguém quer sambar

Não há mais quem cante

Nem há lugar mais lugar

O sol chegou antes

Do samba chegar

Quem passa nem liga

Já vai trabalhar

E você, minha amiga

Já pode chorar

 

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