OPERETA DO CASAMENTO (Edu Lobo - Chico Buarque, 1982)

 

Nem assaz alhures e antanho

Era um evento tamanho

A sagração nupcial

Vinha a noiva de gargantilha

Caçoleta e rendilha

Diadema e torçal

 

Mas se houvesse algum embaraço

Dera a moça um mal passo

Quanto horror e desdém

Ela ia parar no convento

Ia dormir ao relento

Ou deitar nos trilhos do trem

 

Do pudor da noiva a bandeira

Após a noite primeira

Desfraldava-se ao sol

A sua virtude escarlate

Igual brasão de tomate

Enobrecendo o lençol

 

Mas se não houvesse tal mancha

É que outra mancha mais ancha

Se ocultava por trás

E o rapaz pagava o malogro

Com a vendeta do sogro

Ou com a malícia dos mortais

 

``Oh meu pai, oh meu pai, por favor

Condenai o nosso amor

De langor e luxúria!

Mas poupai, oh meu pai

Nosso filho

Da fúria do Senhor!''

 

O guri nasceu apressado

Nem um mês de casado

Tinha quem o gerou

Quando o pai caiu nos infernos

Foi nos braços maternos

Que ele se pendurou

 

Quando a mãe caiu na sarjeta

Foi seguindo a opereta

Na garupa do avô

Quando o avô caiu do cavalo

Foi chorar no intervalo

E mais um ato começou

 

Palhaço, corista

Trapézio, dançarina

Maestro, cortina

É fé na flauta e pé na pista

 

 

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