OPERETA DO MORIBUNDO (Edu Lobo - Chico Buarque, 1985)

 

I Funeral de rico

 

Rico quando vai

Desta vida, sempre vai de mau humor

Ir deitado de casaca é um terror

Abafado e morto de calor

Aturar a marcha fúnebre

 

Só de imaginar

Que os amigos vão deitar nos seus sofás

Vão tomar os seus vermutes, os seus cristais

E as suas mulheres principais

Já na beira do seu túmulo

 

- Gente, quanta gente

Que excelente funeral

- Ficas bem de preto

E o cabelo ao natural

- Dizem que o eminente

Triplicou seu capital

- Vai sobrar para gente

Que nem viu ele vivo

- Tem até donativo

Para as obras do hospital

II Enterro de pobre

 

Pobre quando vai

Sempre dizem que ele vai para uma melhor

Vai olhando aquela gente ao seu redor

Todos com poeira e com suor

Ele achando a coisa ótima

 

Só de imaginar

Que os amigos vão pagar o seu caixão

O barbeiro, o aluguel do rabecão

O vinho do padre, o sacristão

E o sermão na igreja gótica

- Gente, não tem gente

Tem parente pobre só

Esse teu modelo.

Mais parece um dominó

- Nem o indigente

Quis herdar o seu paletó

- Vai sobrar para a gente

Que nem viu ele vivo

- Tem até um passivo

No caderno do Jacó

 

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