O VELHO (Chico Buarque, 1968)

 

O velho sem conselhos

De joelhos

De partida

Carrega com certeza

Todo o peso

Da sua vida

Então eu lhe pergunto pelo amor

A vida inteira, diz que se guardou

Do carnaval, da brincadeira

Que ele não brincou

Me diga agora

O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar

Nada

Só a caminhada

Longa, pra nenhum lugar

 

O velho de partida

Deixa a vida

Sem saudades

Sem dívida, sem saldo

Sem rival

Ou amizade

Então eu lhe pergunto pelo amor

Ele me diz que sempre se escondeu

Não se comprometeu

Nem nunca se entregou

E diga agora

O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar

Nada

E eu vejo a triste estrada

Onde um dia eu vou parar

 

O velho vai-se agora

Vai-se embora

Sem bagagem

Não sabe pra que veio

Foi passeio

Foi passagem

Então eu lhe pergunto pelo amor

Ele me é franco

Mostra um verso manco

De um caderno em branco

Que já fechou

Me diga agora

O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar

Não

Foi tudo escrito em vão

E eu lhe peço perdão

Mas não vou lastimar

 

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