SE EU FOSSE O TEU PATRÃO (Chico Buarque, 1977-1978)

 

Os homens cantam:

 

Eu te adivinhava

E te cobiçava

E te arrematava em leilão

Te ferrava a boca, morena

Se eu fosse o teu patrão

 

Ai, eu te tratava

Como uma escrava

Ai, eu não te dava perdão

Te rasgava a roupa, morena

Se eu fosse o teu patrão

 

Eu te encarcerava

Te acorrentava

Te atava ao pé do fogão

Não te dava sopa, morena

Se eu fosse o teu patrão

 

Eu te encurralava

Te dominava

Te violava no chão

Te deixava rota, morena

Se eu fosse o teu patrão

 

Quando tu quebrava

E tu desmontava

E tu não prestava mais, não

Eu comprava outra morena

Se eu fosse o teu patrão

 

As mulheres cantam:

 

Pois eu te pagava direito

Soldo de cidadão

Punha uma medalha em teu peito

Se eu fosse o teu patrão

 

O tempo passava sereno

E sem reclamação

Tu nem reparava moreno

Na tua maldição

 

E tu só pegava veneno

Beijando a minha mão

Ódio te brotava, moreno

Ódio do teu irmão

 

Teu filho pegava gangrena

Raiva, peste e sezão

Cólera na tua morena

E tu não chiava não

 

Eu te dava café pequeno

E manteiga no pão

Depois te afagava, moreno

Como se afaga um cão

 

Eu sempre te dava esperança

De um futuro bão

Tu me idolatrava, criança

Se eu fosse o teu patrão

 

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