TANGO DO COVIL (Chico Buarque, 1977-1978)

 

Ai, quem me dera ser cantor

Quem dera ser tenor

Quem sabe ter a voz

Igual aos rouxinóis

Igual ao trovador

Que canta os arrebóis

Pra te dizer gentil

Bem-vinda

Deixa eu cantar tua beleza

Tu és a mais linda princesa

Aqui deste covil

 

Ai, quem me dera ser doutor

Formado em Salvador

Ter um diploma, anel

E voz de bacharel

Fazer em teu louvor

Discursos a granel

Pra te dizer gentil

Bem-vinda

Tu és a dama mais formosa

E, ouso dizer, a mais gostosa

Aqui deste covil

 

Ai, quem me dera ser garçom

Ter um sapato bom

Quem sabe até talvez

Ser um garçom francês

Falar de champinhon

Falar de molho inglês

Pra te dizer gentil

Bem-vinda

És tão graciosa e tão miúda

Tu és a dama mais tesuda

Aqui deste covil

 

Ai, quem me dera ser Gardel

Tenor e bacharel

Francês e rouxinol

Doutor em champinhon

Garçom em Salvador

E locutor de futebol

Pra te dizer febril

Bem-vinda

Tua beleza é quase um crime

Tu és a bunda mais sublime

Aqui deste covil

 

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