TEMPO E ARTISTA (Chico Buarque, 1994)

 

Imagino o artista num anfiteatro

Onde o tempo é a grande estrela

Vejo o tempo obrar a sua arte

Tendo o mesmo artista como tela

 

Modelando o artista ao seu feitio

O tempo, com seu lápis impreciso

Põe-lhe rugas ao redor da boca

Como contrapesos de um sorriso

 

Já vestindo a pele do artista

O tempo arrebata-lhe a garganta

O velho cantor subindo ao palco

Apenas abre a voz, e o tempo canta

 

Dança o tempo sem cessar, montando

O dorso do exausto bailarino

Trêmulo, o ator recita um drama

Que ainda está por ser escrito

 

No anfiteatro, sob o céu de estrelas

Um concerto eu imagino

Onde, num relance, o tempo alcance a glória

E o artista, o infinito

 

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