TROCANDO EM MIÚDOS (Chico Buarque)

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim

Não me valeu,

Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?

O resto é seu.

Trocando em miúdos pode guardar,

As sobras de tudo o que chamam lar.

As sombras de tudo o que fomos nós,

As marcas de amor nos nossos lençóis.

As nossas melhores lembranças.

Aquela esperança de tudo se ajeitar

Pode esquecer,

Aquela aliança você pode empenhar

Ou derreter.

Mas devo dizer que não vou lhe dar

O enorme prazer de me ver chorar.

Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago,

Meu peito tão dilacerado.

Aliás,

Aceite uma ajuda do seu futuro amor,

Pro aluguel.

Devolva o Neruda que você me tomou

E nunca leu.

Eu bato o portão sem fazer alarde,

Eu levo a carteira de identidade,

Uma saideira, muita saudade

E a leve impressão de que já vou tarde.

 

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