UM CHORINHO (Chico Buarque, 1967)

 

Ai, o meu amor, a sua dor, a nossa vida

Já não cabem na batida

Do meu pobre cavaquinho

Quem me dera

Pelo menos um momento

Juntar todo sofrimento

Pra botar nesse chorinho

Ai, quem me dera ter um choro de alto porte

Pra cantar com a voz bem forte

E anunciar a luz do dia

Mas quem sou eu

Pra cantar alto assim na praça

Se vem dia, dia passa

E a praça fica mais vazia

 

Vem, morena,

Não me despreza mais, não

Meu choro é coisa pequena

Mas roubado a duras penas

Do coração

Meu chorinho

Não é uma solução

Enquanto eu cantar sozinho

Quem cruzar o meu caminho,

não pára não

 

Mas não faz mal

E quem quiser que me compreenda

Até que alguma luz acenda, este meu canto continua

Junto meu canto a cada pranto, a cada choro,

Até que alguém me faça coro pra cantar na rua

 

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