VERDADEIRA EMBOLADA (Edu Lobo - Chico Buarque, 1985)

 

A verdade que se preza

É fiel que nem um cão

A de César é de César

A de Cristo é do cristão

A mentira anda na feira

Vive armando confusão

Cheia de perfume, rebolando na ladeira

De mão em mão

 

A mentira e a verdade

São as donas da razão

Brigam na maternidade

Quando chega Salomão

A razão pela metade

Vai cortar com seu facão

Vendo que a mentira chora e pede piedade

Dá-lhe a razão

 

Na realidade

Pouca verdade

Tem no cordel da história

No meio da linha

Quem escrevinha

Muda o que lhe convém

E não admira

Que tanta mentira

Na estação da Glória

Claro que a verdade

Paga a passagem

E a outra pega o trem

 

A mentira, me acredite

Com a verdade vai casar

Se disfarça de palpite

Pra verdade enfeitiçar

Todo mundo quer convite

A capela vai rachar

Pra ver a verdade se mordendo de apetite

Ao pé do altar

 

Na verdade cresce a ira

A mentira é só desdém

A verdade faz a mira

A mentira diz amém

A verdade quando atira

O cartucho vai e vem

A verdade é que no bucho

De toda mentira

Verdade tem

 

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